sábado, 19 de março de 2011

História de duas leoas


I
Essas mulheres pouco se falam.
Essas leoas pouco se vêem.
Talvez seja a lua.Ou o vento.
Porém, quando chega o momento,
um solstício,
um eclipse,
um tempo,
qualquer,
propício,
uma elipse:
elas se ausentam do bando,
sem alardes.
Enviam-se sinais:
pássaros de cantos metalizados avisam,
há melodias,
fragrâncias,
intenções.
Chove, a noite, na savana.

II

Não há cova para essas leoas:
há alcova.

Primeiro se cercam,
depois se acercam,
recém-conhecidas- íntimas,
recendem a frutas frescas,
vermelho de sangue,
liberdades e vontades.
E chegando, se provam,
aos poucos,
com o olfato em alerta,
- os sentidos acordados -
com abraços fortes, feitos de algodão,
histórias, no veludo molhado da língua
e carícias guardadas na ponta das garras.

Elas se possuem mansa-pacientemente.
Sem pressa: deita-se,
músculos, carnes,
peles-pêlos, hálitos,
e,ressumbram-se, entre essas leoas:
beijos.

Com o arruar do apetite,
cio rugindo no baixo ventre,
se resumem, entre mordidas.

E, letradas que são,
trocam grunhidos
no idioma dos selvagens...
E se calam.
Bem mais tarde.
Saciado o apetite,
marcas guardadas na carne.

III

Talvez seja a lua.
Ou o vento.
Mas quando chega o momento,
um solstício,
um eclipse,
uma elipse...
um cio,
um tempo,
elas se encontram...

Depois se deixam.


 

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